passeio dentro de ti

nesta cidade, muito guarda-segredos e cantinhos rarefeitos. inacessíveis. na pele colada de balões e bailarinas..
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faz-te íntimo. mas densamente, apaixonadamente pelos apeadeiros.
[movimento-carruagem]
um nervo erótico a propagar-se pela carne.
instante tão frágil que tudo governas
como se fosse possível vestir o fogo.
como se fosse possível..
segredo de uma boca.
que poder temos nós sobre as válvulas biológicas?
que se foda a sépia dos futuros.
eu quero aparecer no dia do teu nascimento, desarmado como uma árvore,
sem outra missão que não dizer-te baixinho..bem-vindo ao continente dos frágeis.
haja elétricos ainda,
pois é à janela levantada de um elétrico que a realidade é premente
e o vento toda a história do mundo.
são esses os momentos em que te desejo.
a tua solidão pactuada..pequeníssima nota reverberada entre pálpebras.
ter dos teus lábios essa sílaba nítida de língua nenhuma.
pretensa inclinação.
sem saber ainda os traços do teu rosto
sei que me reconhecerei em ti com extrema vulnerabilidade.
de ti carregarei até ao fim o anúncio cardíaco,
em pleno silêncio.
gostaria no entanto de te receber num outro lugar.
sei que haverás de te deslocar timidamente
por estas ruas e prédios.
tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo
que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos.
percebes isso?
se a eternidade fosse um espelho o que mostraria?
[na] frágil película das horas
a tua carne
único tesouro
- sei-o enquanto nadas -
..
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[fera oculta; adapt., Vasco Gato]



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escrevemo-nos muito, conversámos de tanta coisa 
e parecem pequenos nadas perante o que [nos] sonhamos.
quem és?
resposta impossível para inexplicáveis tão fortes colados na pele
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fizemos amor tantas vezes
fixámos o olhar e tudo parou
num mundo intenso de prazer sensível
mas sabes que há coisas inultrapassáveis
e nós, encontrámo-nos num tempo errado
sem licença
noutras circunstâncias teria entrado na tua vida
viajado contigo
bebermos café, fazermos amor, adormecermos, passearmos,
discutirmos, beijarmo-nos, abraçarmo-nos,
trocarmos livros,
palavras soltas de Anaïs,
Daniel Filipe, Kubrick, Coppola
pudéssemos manipular o tempo..ar o tempo

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ontem fui ver o mar. precisei de olhar ao longe.
somos uma história em suspenso. a voar 
de uma forma estranha.
[és gaivota. respira.]
contas estrelas comigo?
[sou nómada. não sou príncipe.
louco e inconsequente. descontrolado. 
intenso.]
impossíveis portanto.
[estou em ti.
sem medo.]
hoje queria palavras.
[um dia converso contigo.]
diz-me hoje.
[voa.]
o teu pragmatismo é desconcertante.
[as vidas não são simples.]
mais vale não vasculhar dentro de ti.
[não sejas assim.]
vem.
[promessas.]
riscos.
[não sou racional. e gosto de te ver. 
uma forma de te sentir.]
e o que sentes, nómada, 
nessa terra distante?
[vontade de te ter. percorrer o teu corpo.
a uma velocidade vertiginosa.]
até onde ias?
[gosto de ti.]
acho que podíamos ser uma possibilidade. 
por isso é melhor parar.
[já estamos a fazer amor. tens consciência?]
sim. acho que sim. prometes o sempre?
[sou momento.]
só isso?
[há coisas que não precisam de 
fazer sentido.]
um dia dizes-me?
[desculpa.]
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- há quantos anos?
- perdi a conta.
- saudades tuas. alguma vez te magoei?
- apaixonei-me por ti. já te disse.
- bonita tu. muito.
- não se colocam pássaros em gaiolas.
- não sei. ainda não sei.
- sabes.
- tinha ficado aí contigo. seria diferente?
- talvez.
- ser eu às vezes magoa.
- frágil. tu.
- deserto. paz.
- defesas tuas. 
  [o teu beijo. impulso.
  nada pode ser uma necessidade.]
- estiveste tão lá.
  [uma vez. outra vez.
  só te faltou uma coisa.
  tempo. não te dei tempo.]
- conheço-te.
- eu sei.
..
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..
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..


....
P gosta de ouvir acordes na pele. e ouve tudo, sobretudo o som dos astros.
P também tem medos. mesmo sabendo que há precipícios de onde só é possível voar.
e voa. de olhos focados nas montanhas. mais do que na praia.
promete um dia  ir ver magias no céu nórdico. e derrete-se no conforto dos corpos nus.
muito à noite. quando se dá.
toca. toca-se. sente tudo. e gosta de palavras doces sussurradas ao ouvido.
não resiste às fragilidades da inocência, mas sabe que esta se perde na infância.
por isso, veste quartos de hotel, bancos traseiros e bancadas. verdes. sempre.
diz que se basta. mas não abdica de quem lhe faz falta. e jura sensibilidades sem fim.
a vida, trá-la no sorriso. sobretudo com o olhar. e apaixona-se pelas coisas simples. 
com o seu alentejo na memória.
nesta terra quente sentiu pela primeira vez o cheiro das laranjas. e batizou-a como sua.
e nas intermitências da racionalidade vive a noite confundida no corpo.  de preto, muito de preto.
relaxa enquanto fuma. "viste a lua hoje?"
P quer tudo sem sobressaltos. e detesta gente banal. tanto quanto a psicótica.
fraternal com o que lhe é próximo mas não é seu, adora brincar aos tios e às parecenças.
um pouco distantes, objetivamente, lá perdidas na rapunzel.
aficionado pelos prazeres da vida, adora um bom peixe à beira mar. 
e uma conversa leve à luz de um café onde reclama, com frequência, 
deverem pagar-lhe para aturar música tão má.
P tem uma voz indescritível. 
e embala o público com palavras poesia de livros doces em teatros bonitos. 
a norte.
diz que me gosta. e eu acredito.
P é isto tudo mas não só isto.
mas o resto escreve-se nas estrelas.
com pontinhos. muitos.
..
..
... 
... 
tinha o cheiro das noites sem manhã
o sol filtrado nas frinchas da parede
onde cresciam metáforas
poemas de veneno
e asas frias.
recordas o lugar onde as pombas dormiam?
 ...

.. 
nostalgia de quando se sentia
 o canto na demora dum vento
batendo nas vidraças,
aquele instante batido sobre a areia
entre mares e sargaços.
sede do azul do teu sorriso
mãos transpiradas e corpos alagados.
nao sei de que silêncio falavas.
ainda é madrugada e os pássaros descansam.
monstros imersos
exaustos de voar
asa colada no asfalto.
vem deitar-te ao meu lado
 .. 
.. 
[puri fontes (adapt.)] 
.. 
..
... 
... 
everytime she tries to fight
well she knows he’s right
she’d just been lied to
and he waits
through everything..
..


+ 
..
 ..
 ..
..
..
+
..
..muito bom
..
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 ...
língua encostada ao céu da boca
prendemos a cabeça ao silêncio
é verdade que o tempo não passa 
 para aquilo de que não se tem memória
 ..

.. 
há primeiro algumas crianças
que desejam o impossível
teimam que sim porque sim
qualquer mão
dias definitivos
e só isso
..
+ 
.. 
[há dias, benedict houart (adapt.)]
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 .. 
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,,
num baloiço viaja-se uma vida inteira
..

fall's doll shoes 
kid breakthroughs 
..
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..
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...
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..if i could be who you wanted..
...
...
...
... 
... 
we talk all night long
we define our moral ground
a little mystery to me
you are
 ..

..
come sail your ships 
 around me 
try to fly 
.. 
.. 
..
...
...

jeunesse courage pensée 
mémoire amour
silence 
histoire peur éternel
+
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... 
... 
...

.. 
saudades de tanta coisa. do meu plátano lá fora. do meu mar de inverno a morrer ao longe. de mão pela beira dos passeios no granito neblina. da luz quente na hora do lanche a coar veludo. de livros a cheirar a candelabro verde. como nos filmes. ou salinhas de alfarrabistas. de olhar parado sem depois no imenso das palavras silenciosas. das histórias de café. músicas familiares, dança sorriso, dedos no tamborilar da mesa. de viajar no imaginário. de viajar mesmo. da chuva nos vidros do elétrico a cheirar a ferro velho no carril impregnado nos pulmões. como quem guarda segredos valiosos em cofres fechados. abraço. só. o meu plátano continua lá. queria que me descosesses os olhos mas escondi a tesoura de pontas. talvez para me ensinares a não ter saudades. não pensar tanto. subir para o carrossel e adormecer como os pequeninos.
 ..
 .. 
..
.. 
.. 
as demolições alastram a todos os homens.
mesmo os edifícios que ainda têm pulso
caminham inteiramente inclinados.
..
na loucura pediste o impossível.
corpos cheios de bocas
entregam-se às diversas formas de banho.
.. 
expiarei as minhas traficâncias.
..

  
.. 
comoves-te sempre com a imposição de promessas
sobretudo quando intangíveis e
dilatadas no tempo por
grandes períodos de carência.
agora restam os labirintos.
jardins onde se refugiam nas sombras
dos sistemas de vigilância invisíveis
pó de açafrão
cloro bromo éter
purpurados timbales
turíbulos
incontroláveis delírios de roldanas.
 ..
[francisco vinhas, por que se desloca o homem para o afrontamento do abraço (adapt.)]
.
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.. 
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- estou a ler agora.
- sinto-te mais perto aí longe.
- a 'distância' tem um pouco esta característica. aproxima-nos.
- é.
- herberto helder, tenho de voltar a ler.
- compulsivo.
- curioso o que disseste. a distância aproxima
- é meio estranho e cliché.não digo de maneira negativa.
- não tens que justificar. leio-te.
- tanta coisa na cabeça.
 - maneira de sentir o frio aconchegada. é assim, cru.
- tenho acordado com muitas dores de cabeça
- inevitabilidade estranha para a qual não conseguimos sequer um balanço lógico de sins ou nãos. pura e simplesmente levantas-te e tomas banho. pegas nos pedaços da cama e colas, tal qual bailarina transparente e soldadinho de chumbo.
- a própria paisagem e chuva ajuda. bom e asfixiante [gostava de conseguir dormir melhor, sem estas dores de cabeça] continua estranho nunca nos termos visto.
- só podia ser assim.
- parece sempre tão normal e lógico.
- se nos víssemos podia ser diferente. não sei. existes.
- ser assim, quem sabe seja melhor.
- connosco não há muito isso do bom e do mau. há inevitabilidades
 - quase inocente.
- gosto de ti [vai lá apanhar os pedaços].
..

.. .. 
.. 
..
..
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há palavras que requerem uma pausa e silêncio
..
[herberto helder]
..
..

último comboio
 ..
temerário entrou no comboio
decidido a esquecer
decidido a recuperar o que havia perdido:
humanidade, compaixão, interesse.
não era militar
horas antes da guerra, era um homem no coração dela.
as horas, os carris,
traziam pobres que se sentavam
pelos lugares vazios.
os pobres vinham sujos,
os pobres não queriam compreender
o que não compreendiam,
os pobres, quase sempre desconfiados,
eram maus, verdadeiramente.
os pobres não tinham culpa.
pouco a pouco, apareceram arvores
açudes, pequenos rebanhos.
um pedinte sorria,
tinha o que beber, tinha o que comer,
não tinha culpa.
prostitutas, havia,
por uma nota, uma nota pequena
ajoelhavam-se entre as suas pernas,
não tinham culpa.
as nogueiras carregadas de frutos
lembraram-lhe o seu país cheio de droga,
as crianças nos bolsos dos velhos,
criminosos nos bolsos de tudo,
não têm culpa.
de repente, saído do nada
uma igreja, ortodoxa, e o reflexo
dos seios da prostituta,
que os acariciava dizendo
«come, baby, come».
a igreja e os seios
desapareceram na curva seguinte.
sem saber o que fazer
com o livro que trazia na mão
(poetas que gritavam amor,
gritavam a falta de um corpo,
como se lhes não importasse
terem perdido a alma)
pôs-se a inventar mentiras,
não para humilhar a verdade,
apenas tentar descobrir um lugar
onde já não fosse possível
mentir mais.
não se sabia bem em que país se estava,
todos eles poderiam ser
um outro qualquer que não o próprio.
alguns adolescentes, já tão pobres
quanto os adultos,
ao verem o livro nas mãos gritaram
«o cabrão é poeta, se calhar
ainda nos paga para nos fazer um broche».
talvez não soubessem
mais o que dizer, em inglês,
talvez não quisessem dizer isso,
talvez nem sequer tivessem uma língua,
não tinham culpa.
setembro, à saída da estação.
um deserto com montanhas ao fundo
e uma forte dor na nuca.
táxis e o vento,
ruidoso como a incerteza,
jurou nunca mais voltar atrás,
jurou que seria verdade, desta vez.
dizia adeus à europa.
 ..
[paulo josé miranda, o tabaco de deus]
..
..
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.. 
.. 
porque não sei que coisas tinhas lido há uns tempos,
ao sair do cinema quiseste conhecer o amor grande e secreto.
a bordo de uma mulher tentei hoje um pouco de carinho.
nem sequer me disseste o teu nome
fazes parte do ser da rua,
de outro homem,
do esforço de andar.
a procura é luta nos saldos?
[não vás acreditar que me sodomizaste 
em cima da mesa com a saia levantada 
e que depois fiquei tranquila ao teu lado 
fumando este cigarro e 
olhando-te na cara ao vestir-me com prestreza 
deixando-te adormecido, como queria esse poema 
que leste na praça antes de me pedir que viesse aqui contigo; 
não, amor, não creias nisso. 
eu estava apenas a tentar sobrepor-me a ser quem sou]
..

..  
devia acompanhar-te amanhã ao dentista,
 ter outro filho teu.
amar a crédito sem verificar a dívida.
tentei fugir e o certo é que deu resultado:
risco ocasional,
não te seguir atravessando a sala,
 beijar-te em qualquer lado,
sentar-me nas cadeiras sem roupa amontoada por passar e
um pouco de tempo até que cheguem os monstros,
os teus fantasmas.
faltam-nos braços e palavras,
 horizontais noites
saliva de ter sido
.. 
[jordi virallonga, quanto sei de mim (adapt.)] 
 .. 
..
.. 
..
todas as viagens são negócios e os hotéis reservam-nos o direito de não encontrarmos diferenças. as janelas laranjas brilhantes penduradas nas altas árvores de betão. com um só cigarro, restava-lhe pôr-se a andar ao contrário dos carros. toda a terra é estrangeira. uma gota de álcool, as pequenas coisas com que se desperdiçam os dias e se inventa a eternidade ou uma noite de sexo à tarde. com os olhos e as ruas enlameadas pela corrupção dos corpos, uma garrafa de vodka vazia, palavras sem decência nenhuma, a beleza branca que quase sempre mata, os sapatos na sala à luz da manhã. os corpos abrigando-se da claridade excessiva despediram-se para nunca mais. decidido a pagar para ouvir alguém fingir prazer.
 ..

..   

..
nas férias brinca-se ao que se poderia ter sido. é provável que alguém pense na sua própria mulher de férias em outra parte do mundo e na possibilidade de estar a sentir o mesmo. quando regressarem amar-se-ão como se houvesse alguma verdade nisso. nesse dia ouvir-se-á em uníssono «já tinha saudades de casa». lisboa morre a pouco e pouco sob os lençóis.
..
[paulo josé miranda, o tabaco de deus] (adapt.)]
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.. 
ela escreve a palavra fim a marcar
novas coordenadas no corpo.
tatua os medos numa fragilidade compulsiva.
bailarina transparente e soldadinho de chumbo,
 presos por uma cola de contacto fora de prazo.
 ....
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..


sorriem da gravidade como desdobra os joelhos,..
da verticalidade ridícula das cidades,
dos lábios exageradamente pintados,
da vida mal copiada de um ficheiro zip.
num único movimento imperfeito explicam a intimidade crua.
como é a tua intensidade? 
[palavras embrulhadas numa folha de papel manteiga]
não há reflexos, 
és bonito assim.
..
pássaros pedem uma porta da gaiola
que sirva de referência ao carteiro.
..
 [marco dias & nuno gandra, lado negro (adapt)]
..
..
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